Trabalhando com trauma, eu vivencio há anos:
as minhas dores, as dores do paciente, o impacto, o desafio da atenção ao autocuidado e também uma profunda transformação pessoal.

Você também?

Como terapeutas, não deixamos de trilhar nosso próprio caminho de cura, mesmo diante das situações — muitas vezes traumáticas — que vivenciamos na infância ou em outros momentos da vida. Sabemos que precisamos cuidar dos nossos próprios traumas para que eles não interfiram no tratamento de nossos pacientes. Essas experiências dolorosas, quando bem trabalhadas, podem inclusive se tornar a base para uma atuação terapêutica mais compassiva, sensível, empática e esperançosa.

Além da nossa história, dos estressores passados e atuais, o trabalho clínico com trauma impõe exigências emocionais consideráveis.
(Leia até o final, pois não trago somente más notícias 😉).

Nosso contexto de atuação demanda atenção constante aos riscos de fadiga por compaixão, burnout e trauma secundário, especialmente em função da exposição recorrente a conteúdos traumáticos.

Os terapeutas acompanham histórias marcadas por vivências extremas e incapacitantes: sentimentos de desamparo, desesperança, isolamento, solidão, injustiça, desigualdade, sofrimento intenso, raiva, experiências de maldade e crueldade e, muitas vezes, a perda do propósito de vida.

Nossa.
Faltou até o ar.

Respira.

Nesse cenário, determinadas práticas mostram-se fundamentais para sustentar o bem-estar emocional, mental e físico do profissional. Listei algumas apontadas na literatura em um post no Instagram.
👉 Acesse o post clicando aqui e me conta se você considera alguma outra prática essencial. O que você costuma fazer para amortecer o estresse do trabalho?

Em meio às demandas da vida, inserir todas essas práticas de autocuidado ao mesmo tempo torna-se desafiador — eu bem sei.
Mas precisamos estar atentos (“e fortes”, como diz a música), cientes de que o autocuidado não é um luxo nem um objetivo abstrato: ele precisa ser contínuo e permanecer no nosso horizonte de metas, mesmo quando, em alguns momentos, não atinge o ideal saudável.

Por fim, deixo aqui uma dose de quentinho no coração.
Embora a literatura reconheça os impactos adversos que o trabalho com trauma pode provocar no terapeuta, ela também aponta um potencial transformador significativo.

As experiências vicárias no contexto clínico podem favorecer o crescimento pessoal e profissional do terapeuta, ampliando sua capacidade de enfrentar desafios ao testemunhar a resiliência, a perseverança e a coragem demonstradas por seus pacientes. Há pesquisas muito interessantes sobre isso, especialmente no campo da resiliência vicária e do crescimento pós-traumático secundário.

Eu disse que teria um presente para você no final, não disse?

Então, aqui está um material para salvar ou imprimir, de um livro muito especial sobre o tratamento do Trauma Complexo. Nele, a autora compartilha algumas perguntas para ajudar a identificar recursos que podem sustentar nosso trabalho no mundo. 🙂

Se fizer sentido para você, posso compartilhar algumas das minhas respostas na próxima newsletter. Responda a este e-mail se você acha interessante. Se quiser compartilhar as suas também, vou adorar a nossa troca de figurinhas.

Com carinho,

Tânia Fagundes

Caso você queira consultar algumas das referências que utilizei para escrever essa newsletter, a lista está abaixo.

Cloitre, M., Cohen, L. R., Ortigo, K. M., Jackson, C., & Koenen, K. C. (2020). Treating survivors of childhood abuse and interpersonal trauma: STAIR narrative therapy (2nd ed.). The Guilford Press.

Engstrom, D., Hernández, P., & Gangsei, D. (2008). Vicarious resilience: A qualitative investigation into its description. Traumatology, 14, 13-21.

Hernández, P., Gangsei, D., & Engstrom, D. (2007). Vicarious resilience: A qualitative investigation into a description of a new concept. Family Process, 46, 229- 241.

Hernandez-Wolfe, P. (2014). Vicarious resilience, vicarious trauma, and awareness of equity in trauma work. Journal of Humanistic Psychology, 55(2), 153–172.

Rothschild, B. (2006). Help for the helper: The psychophysiology of compassion fatigue and vicarious trauma. W. W. Norton & Company.

Schwartz, A. (2021). The complex PTSD treatment manual: An integrative mind–body approach to healing trauma. New York, NY: W. W. Norton & Company.

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